Mundo
Guerra na Ucrânia
Conselho Europeu dedica-se à competitividade sem poder ignorar a guerra
A reunião tem como tema principal a competitividade. Mas as questões da Ucrânia e do Médio Oriente vão certamente marcar o encontro de chefes de Estado e de governo europeus desta quinta-feira.
Não está excluída a hipótese de a reunião ter de se prolongar para sexta-feira, mas a intensão do presidente do Conselho Europeu é a de que tudo se decida num só encontro, mesmo que termine na madrugada do dia seguinte.
Na agenda está previsto um almoço com o secretário-geral da ONU, António Guterres – nesta que será, ao que tudo indicada, a última vez que participa num Conselho Europeu.
Na carta convite que António Costa dirigiu aos chefes de Estado e de governo pode ler-se que “abordaremos igualmente a situação preocupante no Líbano, em Gaza e na Cisjordânia. Convidei o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, a juntar-se a nós num almoço de trabalho para debatermos a deterioração da situação internacional e a forma como a União Europeia, em colaboração com os seus parceiros, pode agir para defender o multilateralismo”.
Haverá também tempo para uma intervenção do presidente Ucraniano por videoconferência.
“No início do nosso debate sobre a Ucrânia, ouviremos o presidente Volodymyr Zelensky. Reafirmaremos o nosso firme apoio à Ucrânia, que continua a defender-se contra a agressão russa e luta por uma paz justa e duradoura. Continua a ser essencial aumentar a pressão sobre a Rússia até que esta se empenhe em negociações construtivas que conduzam à paz”, referiu o Presidente do Conselho Europeu.
Para o fim fica a cimeira do Euro em formato inclusivo e que contará com a presença da presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, e do presidente do Eurogrupo, Kyriakos Pierrakakis.
Uma discussão sobre a competitividade
Espera-se que seja definida uma agenda de prioridades para a competitividade europeia para 2026/2027, com medidas e datas concretas para as ter em execução.
Em cima da mesa vão estar questões como o do Mercado Único – para o qual se espera um claro compromisso dos 27 na aprovação da harmonização de leis ou do reconhecimento das leis nacionais pelos outros Estados-membros, proteção de consumidores e rotulagem de produtos, redução das dependências europeias e mobilização de investimentos (com a eventual afixação de prazos para finalizar o Mercado de Capitais e um apelo para progressão da União Bancária), entre outras questões como a da simplificação e redução dos encargos administrativos e do tempo necessário para a criação de empresas na União (recorde-se que a Comissão Europeia apresentou na quarta-feira uma proposta de simplificação que vai permitir a qualquer empresário criar uma empresa em 48 horas, com um custo máximo de 100 euros e sem exigência de capital social mínimo a partir de qualquer ponto na União Europeia e de forma totalmente digital – ver quadro).
O presidente do Conselho Europeu afirmou os objetivos em cima da mesa e realçou que “a competitividade não é um fim em si mesma. Deve permitir-nos construir uma União mais coesa, com as pessoas no centro. Uma maior competitividade europeia deve ser acompanhada por uma melhoria justa das condições de trabalho. Não vamos ceder nos direitos dos cidadãos, das empresas e do ambiente. Devemos manter os empregos na Europa e aumentar de forma sustentável a oferta de empregos de qualidade”.
Em Bruxelas, António Costa mostrou-se convicto de que a implementação da agenda Uma Europa, Um Mercado irá fortalecer “os alicerces do nosso modelo social. Colocando os trabalhadores em primeiro lugar. Trabalhar para a prosperidade partilhada e reduzindo o custo de vida para todos”.
EU Inc.
A Comissão Europeia apresentou a proposta relativa ao EU Inc., um novo conjunto único de regras aplicável às empresas e que constitui o elemento fundamental do 28.º regime da UE.
O EU Inc. é um quadro de direito societário europeu, de aplicação facultativa e totalmente digital, que visa facilitar a criação, a atividade e o crescimento das empresas na UE, incentivando-as a permanecer na União e criando condições para o regresso daquelas que saíram da Europa.
No contexto atual, os empresários e as empresas inovadoras que decidam expandir as suas atividades para outros países da UE defrontam-se com um panorama jurídico fragmentado, com 27 sistemas jurídicos nacionais e mais de 60 formas jurídicas de empresa. Esta complexidade, refere a Comissão Europeia, “pode atrasar a criação de uma empresa várias semanas ou mesmo meses, com consequências negativas sobre o crescimento, os custos e a escala das empresas”.O EU Inc. é o elemento central da resposta da Comissão Europeia a estes desafios: assumindo a forma de um regulamento, o EU Inc. estabelece um conjunto único e harmonizado de regras aplicáveis às empresas, alternativo aos distintos regimes nacionais, permitindo tirar partido do verdadeiro potencial do mercado único.
A presidente do Executivo europeu, Ursula von der Leyen, referiu, na apresentação deste programa que "a Europa tem talento, ideias e ambição para ser o melhor espaço para os inovadores. No entanto, nos tempos que correm, os empresários europeus que pretendam expandir as suas empresas deparam-se com 27 sistemas jurídicos e mais de 60 formas de empresas nos Estados-Membros. Com o EU Inc., estamos a facilitar significativamente a criação de empresas e o seu crescimento em toda a Europa".
"Qualquer empresário poderá criar uma empresa em 48 horas, a partir de qualquer ponto na União Europeia e de forma totalmente digital. Este passo crucial é apenas o início de um processo. O nosso objetivo é claro: uma Europa, um mercado, até 2028".
A energia no centro das preocupações
No que se refere à competitividade a energia surge como um dos maiores desafios com preços da energia elevados, sobretudo no caso da eletricidade.
Medidas de curto prazo
No curto prazo e tendo em conta a guerra no Médio Oriente, os líderes admitem há um problema com os preços da eletricidade e vão analisar como podem ser reduzidos.
António Costa considera que “o conflito no Médio Oriente está a agravar uma situação já de si complexa. O aumento dos preços da energia e a incerteza quanto à segurança do abastecimento estão a afetar as economias europeia e global. Mas esta crise demonstra, mais claramente do que nunca, que o caminho da Europa para uma maior autonomia e resiliência já não é opcional. É essencial para garantir a nossa segurança e prosperidade”.
“Graças aos nossos esforços coletivos, incluindo a implementação acelerada das energias renováveis e a diversificação das nossas importações de energia, estamos muito mais bem preparados para resistir ao atual choque dos preços da energia do que estávamos em 2022”, reforçou António Costa no fim da reunião com os parceiros sociais.
Os Estados-membros, pelo menos uma larga maioria, já disseram que o sistema do mercado de eletricidade não deve ser alterado, mas há países que defendem a revisão ou suspensão do Mercado de Carbono devido ao aumento dos preços da energia (recorde-se que Portugal é um dos países que defende a manutenção do Sistema de Comércio de Emissões da União Europeia: ver quadro seguinte) mas procuram-se soluções no curto prazo – e com a rapidez possível – para ajudar empresas e famílias no que se refere ao aumento dos preços da energia.Na carta que endereçou aos estados-membros antes da reunião desta quinta-feira, a presidente da Comissão Europeia admite que “as restrições prolongadas no fornecimento de petróleo e gás do Médio Oriente à União Europeia podem ter um impacto significativo na economia europeia”.
Ursula von der Leyen afasta a possibilidade de problemas no abastecimento, mas reforça que “ao mesmo tempo, o impacto nas nossas economias e indústrias está a tornar-se cada vez mais pronunciado. E temos de nos preparar para mais, caso o conflito se prolongue. A nossa resposta deve ser diretamente proporcional à gravidade das ameaças que enfrentamos”.
“Atualmente, a segurança física do abastecimento energético da UE está garantida. No entanto, o aumento dos preços dos combustíveis fósseis já está a pesar sobre a nossa economia e, desde o início do conflito, a Europa já gastou mais seis mil milhões de euros em importações de combustíveis fósseis, uma chamada de atenção direta do preço que pagamos pela nossa dependência. Uma interrupção prolongada do fornecimento de petróleo e gás da região do Golfo poderá ter um impacto significativo na nossa economia”, pode ler-se na carta de Von der Leyen.
Por isso, a presidente da Comissão sugere que “os Estados-membros podem conceder um alívio imediato dos preços da eletricidade às indústrias com utilização intensiva de energia mais afetadas, através do atual quadro de auxílios estatais. O mesmo é possível para os custos de carbono, em que os Estados-Membros também podem compensar até 80 por cento dos custos indiretos de carbono, mitigando assim o impacto dos custos de carbono numa vasta gama de indústrias de utilização intensiva de energia”.
Von der Leyen recordar que “subsidiar ou limitar o preço da geração a gás e redistribuir as receitas inframarginais é outro instrumento que alguns Estados-membros têm utilizado, por exemplo, na crise energética de 2022. A Comissão avaliará, caso a caso, o impacto de tais mecanismos nacionais de emergência concebidos para limitar os efeitos dos elevados preços do gás na eletricidade. A conceção destes mecanismos de emergência deve, em qualquer caso, evitar distorções do mercado interno, preservar os sinais de investimento a longo prazo para as energias limpas e impedir uma procura adicional excessiva de gás”.
Tendo em conta a atual situação, a presidente do Executivo Europeu sugere ainda outras medidas imediatas que ajudem a minimizar os efeitos como “a libertação da maior quantidade de reservas estratégicas de petróleo coordenada pela Agência Internacional de Energia para compensar possíveis interrupções no transporte pelo Estreito de Ormuz e a coordenação para restaurar a navegação na região, incluindo a possibilidade de “coordenação multinacional para preparar o restabelecimento da liberdade de navegação na região quando as condições de segurança o permitam”.
Ursula von der Leyen sugere ainda um incentivo ao aumento da produção de energia em países capazes de substituir fornecimentos interrompidos e renova o apelo para uma monitorização próxima dos impactos no mercado de fertilizantes, essenciais para os agricultores e para a segurança alimentar global.
“Neste contexto, é importante que quaisquer medidas de curto prazo não atrasem a descarbonização do sistema energético, não aumentem a procura de petróleo e gás, sejam temporárias e direcionadas, e minimizem os custos fiscais”, refere a Presidente da Comissão Europeia.Luís Montenegro defendeu a manutenção de um mercado de carbono robusto na União Europeia e alertou para os riscos de enfraquecer este instrumento central da política climática europeia.
Numa carta dirigida ao presidente do Conselho Europeu – em conjunto com a Dinamarca, Espanha, Finlândia e Suécia – os países signatários defendem que qualquer tentativa de "enfraquecer, suspender ou limitar" o Regime de Comércio de Emissões da União Europeia poderia “comprometer a confiança dos investidores, prejudicar os pioneiros das energias renováveis e atrasar a transformação das economias europeias”.
Os cinco países defendem que o Mercado Europeu de Carbono constitui a "pedra angular da estratégia climática e industrial da Europa" e é “o instrumento mais eficaz para reduzir emissões, orientar o investimento em tecnologias limpas e promovera transformação industrial da Europa, ao apoiar a eletrificação”.
Os primeiros-ministros defenderam também a “eliminação progressiva das licenças gratuitas atribuídas a alguns setores industriais, considerando que essa medida é necessária para garantir incentivos à transição energética e à descarbonização da economia, preservando ao mesmo tempo a competitividade das empresas”.
Na carta, os líderes sublinham ainda que reduzir a dependência de combustíveis fósseis reforça a resiliência económica, reduz os custos estruturais com a energia e aumenta a autonomia estratégica da Europa, defendendo que a descarbonização é não apenas uma estratégia climática, mas também de competitividade económica.
Soluções e iniciativas de médio prazo
No que se refere ao médio prazo, o objetivo é manter as metas de descarbonização e de energia limpa. Fonte europeia confirma que “por sermos dependentes dos combustíveis fósseis temos de continuar o caminho da eletrificação das economias e das sociedades” e este é certamente um compromisso que os chefes de Estado e de Governo “vão querer reafirmar”.
O presidente do Conselho Europeu chamou a atenção para este assunto no fim da reunião bianual com os parceiros sociais em Bruxelas, nesta quarta-feira.
Na declaração final, após a Cimeira Social Tripartida, António Costa referiu que, “no Conselho Europeu, os líderes da UE vão decidir sobre medidas concretas e prazos para reforçar a competitividade europeia. Devemos reforçar o nosso Mercado Único, reduzindo as barreiras nacionais e europeias, facilitando o investimento e reduzindo as dependências”.
O objetivo é “tornar a nossa economia e o nosso modelo social europeu mais resilientes a choques e ao aumento da volatilidade. Devemos reforçar a autonomia estratégica da Europa nas áreas da energia, das tecnologias digitais, da defesa e da segurança, e isto exige uma Europa mais determinada e unida. Tal como fizemos de 2025 o ano da defesa europeia — dando passos históricos no sentido de investimentos conjuntos e de instrumentos partilhados — estamos a fazer de 2026 o ano da competitividade europeia.
O Presidente do Conselho Europeu reforçou que o objetivo é tomar “medidas concretas para criar um Mercado Único para uma Europa unida. Para proteger os nossos cidadãos, os nossos trabalhadores e as nossas empresas de ameaças externas, ao mesmo tempo que removemos as barreiras internas que nos impedem de avançar”.
“Devemos manter o rumo e até mesmo acelerar os nossos esforços a longo prazo para descarbonizar a economia europeia. A transição para energias limpas e de origem local é a melhor estratégia para reduzir a nossa dependência dos combustíveis fósseis e baixar os preços da energia”, defende António Costa.
Os chefes de Estado e de governo devem analisar a possibilidade de, ao nível das energias, diversificar as fontes, propor um privilégio de produção europeu e realçar a necessidade de a Europa se proteger de medidas que possam minar a competitividade definindo melhor o uso do instrumento de anti-coerção.
Numa carta que dirigiu aos chefes de Estado e de governo, a presidente da Comissão Europeia definiu medidas de médio e longo prazo como acelerar o investimento em energias renováveis para diminuir a dependência do gás, promover contratos de longo prazo de eletricidade para dar maior estabilidade de preços às empresas, evitar o encerramento prematuro de infraestruturas energéticas de baixo carbono como centrais nucleares e permitir apoios estatais e compensações de custos de carbono às indústrias intensivas em energia.
Compete agora aos Estados-membros definir quais para que a Comissão possa avançar com propostas concretas.
Carta de Ursula von der Leyen aos líderes antes do Conselho Europeu
“A questão mais premente, tanto do ponto de vista da competitividade como da independência, é a energia, em particular o petróleo e o gás. Desde 2021, a UE tem feito progressos significativos na diversificação do fornecimento de energia e no aumento da capacidade de energia renovável. A sua participação na matriz energética aumentou de 36 por cento em 2021 para 48 por cento em 2025. Juntamente com a energia nuclear, mais de 70 por cento da nossa eletricidade é agora produzida a partir de fontes de energia de baixo carbono. Apesar disso, vários sectores – nomeadamente o dos transportes – continuam fortemente dependentes da importação de combustíveis fósseis.
Ao mesmo tempo devemos avançar rapidamente para os próximos passos: medidas que reduzam os custos de energia de forma mais duradoura, abordando os fatores estruturais que impulsionam os elevados preços da energia, com foco na eletricidade.
Para isso, devemos atuar sobre os quatro principais componentes que determinam os preços da eletricidade: (1) o custo da própria eletricidade; (2) tarifas de rede; (3) impostos e taxas; e (4) custos de carbono.
Em primeiro lugar, no que diz respeito ao custo da eletricidade, que por si só representa mais de metade do preço. A redução destes custos exige progressos rápidos em direção às metas de energia limpa da UE para 2030, com investimentos oportunos em locais e tecnologias alinhados com as necessidades do sistema. Esta é a melhor forma de limitar as horas em que o gás natural, mais caro, define o preço grossista. Os especialistas concordam que um sistema baseado no mercado e na definição de preços marginais proporciona benefícios claros no geral. Nas últimas semanas, muitos de vós – bem como um vasto leque de partes interessadas – têm alertado contra a alteração deste modelo fundamental.
Ao mesmo tempo, é inegável que o sistema atual cria desafios significativos em alguns Estados-Membros, especialmente quando os preços do gás são elevados. Para além de uma mudança estrutural mais rápida, devemos também mitigar o impacto dos custos dos combustíveis fósseis durante estes períodos.
Tal como recomendado no Relatório Draghi, os contratos de longo prazo, os chamados Acordos de Compra de Energia podem desempenhar um papel importante ao desvincular os preços da energia industrial do mercado grossista mais volátil. Até ao momento, a sua adoção tem sido limitada. A Comissão irá, assim, eliminar as barreiras existentes e promover ainda mais a sua utilização para todas as capacidades de geração de baixo carbono, incluindo através da combinação de Acordos de Compra de Energia com Contratos por Diferença
Evitar a desativação prematura de ativos, como as instalações nucleares existentes, que podem continuar a fornecer eletricidade fiável, de baixo custo e com baixas emissões, também pode desempenhar um papel importante.
Acelerar a integração de energia de baixo carbono e produzida localmente no nosso sistema energético é uma das formas mais eficazes de reduzir o impacto dos combustíveis fósseis na definição de preços. Não podemos permitir que enormes volumes de capacidade renovável economicamente viável deixem de chegar aos consumidores devido a redes inadequadas. Devemos dar prioridade às negociações sobre o Pacote das Redes, em particular no que diz respeito à aceleração dos procedimentos de licenciamento, garantindo a sua rápida adoção e avançando resolutamente com outros elementos de flexibilidade do sistema, incluindo o lado da procura.
No que diz respeito aos impostos e taxas, ainda existem discrepâncias significativas dependendo da fonte de energia. Em muitos casos, a eletricidade é tributada muito mais pesadamente — até quinze vezes mais — do que o gás. Isto impõe um fardo desproporcionado às empresas, especialmente às indústrias com utilização intensiva de energia que estão em transição para a eletrificação e a descarbonização.
Existe, portanto, um claro potencial, incluindo através de legislação, para reduzir a tributação da eletricidade, eliminar certas taxas não relacionadas com a energia das faturas de eletricidade e garantir que a eletricidade é tributada de forma mais favorável do que os combustíveis fósseis”.
A via diplomática para a crise no Médio Oriente
Coordenar a posição e as ações dos Estados-membros para minimizar os impactos para poder contribuir para o atenuar da situação no terreno.
Ursula von der Leyen recorda que a “crise no Médio Oriente é um conflito regional com graves repercussões geopolíticas e geoeconómicas para a Europa – desde a energia e finanças, ao comércio e transportes, às cadeias de abastecimento e à deslocação de pessoas dentro e entre países da região. Vimos um dos nossos Estados-membros, o Chipre, ser afetado e reafirmaremos o nosso apoio e solidariedade inabaláveis a eles ainda esta semana. Vimos os nossos parceiros serem diretamente visados, os nossos cidadãos serem apanhados no fogo cruzado e a NATO ser chamada à ação para abater mísseis e drones. A nossa principal prioridade continua a ser a segurança dos nossos cidadãos, Estados-Membros e parceiros, e devemos enviar uma mensagem clara de que reforçaremos todos os esforços diplomáticos para trabalhar em prol da redução de tensões”. A situação na Ucrânia
Com a presença do presidente de Ucrânia, por videoconferência, a ajuda à Ucrânia surge como um dos temas mais complexos deste Conselho Europeu e novamente por cauda do primeiro-ministro da Hungria.
Viktor Orbán enfrenta uma eleição crucial no próximo mês, que poderá pôr fim aos seus 16 anos no poder, e tem feito da Ucrânia e do Presidente ucraniano um dos seus alvos principais na luta pela vitória eleitoral, com Budapeste cheia de cartazes com a imagem de Zelensky e afirmações de que a Hungria não se deixará dominar por Kiev.Orbán resolveu mesmo recuar no que ficou decidido no Conselho Europeu em dezembro e bloquear o empréstimo à Ucrânia que exige unanimidade entre os membros da UE e o 20.º pacote de sanções contra a Rússia,
Uma fonte europeia confirma que o presidente do Conselho Europeu teve na manhã de terça-feira uma longa conversa telefónica com o primeiro-ministro da Hungria, mas sem grandes avanços.
Mesmo assim, António Costa já fez saber – por várias vezes – que os compromissos assumidos por Orbán em dezembro devem ser cumpridos... e rapidamente. Resta saber se a Hungria o vai fazer porque em causa está o empréstimo de 90 mil milhões em dois anos à Ucrânia que os 27 aprovaram na última reunião e que dificilmente pode avançar se o primeiro-ministro húngaro se recusar.
Na origem desta posição de Budapeste está o oleoduto de Druzhba, uma das maiores artérias energéticas da Europa, que abastece ainda a Hungria e a Eslováquia de petróleo russo mais barato.
Esta via foi danificada em bombardeamentos russos o que impede que os dois países da União Europeia recebam o petróleo de Moscovo. Budapeste e Bratislava queixam-se da insegurança energética que esta situação representa.Viktor Orbán defende que o oleoduto de Druzhba está operacional e que só está fechado pelo Presidente ucraniano por razões políticas e com o objetivo de influenciar as eleições húngaras de 12 de abril.
Numa carta enviada a Ursula von der Leyen, Zelensky afirmou que as alegações de Orbán são "infundadas" e argumentou que a interrupção foi causada por ataques russos ao oleoduto e às infraestruturas adjacentes no final de janeiro.
Zelensky defende-se e diz que não é uma obra prioritária para um país em guerra sobre constantes bombardeamentos e que tem o seu próprio sistema de energia sucessivamente destruído pela Rússia.
O tom das acusações entre Kiev e Budapeste já esteve mais elevado – com Bruxelas a pedir a Kiev para atenuar o discurso – e acredita-se que o facto de Volodymyr Zelensky ter aceitado a ajuda da União Europeia e a presença de técnicos enviados pela Comissão Europeia pode fazer recuar Viktor Orbán.
Bruxelas confirmou que a Ucrânia aceitou uma inspeção externa ao polémico oleoduto e esta mudança pode abrir caminho para a Hungria retirar o seu veto ao empréstimo à Ucrânia e ao novo pacote de sanções.
O bloco europeu também se ofereceu para financiar as obras de reparação do oleoduto.
"A UE ofereceu à Ucrânia apoio técnico e financiamento. Os ucranianos acolheram e aceitaram esta oferta", afirmaram na terça-feira a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, numa declaração conjunta garantindo que “os especialistas europeus estão disponíveis imediatamente".
Um alto funcionário europeu recorda que “os dois assuntos não estão ligados embora a Hungria os queira manter juntos” e que “o presidente do Conselho Europeu defende que a decisão sobre o empréstimo à Ucrânia é para respeitar, mas que se deve trabalhar na questão do oleoduto por ser importante para a segurança energética daqueles dois Estados-membros”.
O mesmo alto funcionário referiu que a “União Europeia deve prestar assistência a qualquer estado-membro que precise da mesma” e que “a iniciativa de enviar uma missão técnica à Ucrânia se insere nessa preocupação que Bruxelas tem em auxiliar qualquer um dos países que a integram”.
“A nossa prioridade é garantir a segurança energética para todos os cidadãos europeus. Neste sentido, a presidente da Comissão Europeia e o presidente do Conselho Europeu continuarão a trabalhar com as partes envolvidas em rotas alternativas para o trânsito de petróleo bruto não russo para os países da Europa Central e Oriental”, pode ler-se na declaração conjunta conhecida esta semana.
Mais, Von der Leyen e Costa afirmam que “no atual contexto de elevada volatilidade dos mercados energéticos, a retoma do trânsito do petróleo pelo território ucraniano torna-se ainda mais importante para preservar a estabilidade do mercado. Isto está também em consonância com as obrigações contratuais existentes da Ucrânia, bem como com a derrogação concedida à Hungria e à Eslováquia relativamente à proibição geral da UE à importação de petróleo russo”.
Os dois presidentes garantiram a Zelensky que a operação de reparação não vai afastar Bruxelas da intenção de eliminar gradualmente todos os combustíveis fósseis russos até ao final de 2027 para cortar todas as formas de financiamento da economia de guerra do Kremlin.No entanto, a Hungria insiste que devem estar envolvidos especialistas húngaros e eslovacos e o Ministro dos Negócios Estrangeiros húngaro, Péter Szijjártó já classificou a medida de von der Leyen sobre o gasoduto como "teatro político" argumentando que “Budapeste não está disposta a ceder”.
"Não se deixem enganar. Isto é um jogo político. Cada passo foi coordenado entre Kiev e Bruxelas. Não vamos fingir que von der Leyen está a resolver um problema do qual não tinha conhecimento. Apelamos a Zelenskyy e von der Leyen para que parem com este teatro político", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria.
É um cenário, ainda, de incerteza. Os contactos diplomáticos continuam para tentar encontrar um acordo que permita desbloquear o empréstimo à Ucrânia e o 20.º pacote de sanções à Rússia. Resta saber se o Primeiro-ministro húngaro cede antes das eleições que podem determinar o seu futuro na liderança política do país mais ainda quando, a três semanas das eleições legislativas, as sondagens colocam o partido de Viktor Orbán a perder.
Na agenda está previsto um almoço com o secretário-geral da ONU, António Guterres – nesta que será, ao que tudo indicada, a última vez que participa num Conselho Europeu.
Na carta convite que António Costa dirigiu aos chefes de Estado e de governo pode ler-se que “abordaremos igualmente a situação preocupante no Líbano, em Gaza e na Cisjordânia. Convidei o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, a juntar-se a nós num almoço de trabalho para debatermos a deterioração da situação internacional e a forma como a União Europeia, em colaboração com os seus parceiros, pode agir para defender o multilateralismo”.
Haverá também tempo para uma intervenção do presidente Ucraniano por videoconferência.
“No início do nosso debate sobre a Ucrânia, ouviremos o presidente Volodymyr Zelensky. Reafirmaremos o nosso firme apoio à Ucrânia, que continua a defender-se contra a agressão russa e luta por uma paz justa e duradoura. Continua a ser essencial aumentar a pressão sobre a Rússia até que esta se empenhe em negociações construtivas que conduzam à paz”, referiu o Presidente do Conselho Europeu.
Para o fim fica a cimeira do Euro em formato inclusivo e que contará com a presença da presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, e do presidente do Eurogrupo, Kyriakos Pierrakakis.
Uma discussão sobre a competitividade
Espera-se que seja definida uma agenda de prioridades para a competitividade europeia para 2026/2027, com medidas e datas concretas para as ter em execução.
Em cima da mesa vão estar questões como o do Mercado Único – para o qual se espera um claro compromisso dos 27 na aprovação da harmonização de leis ou do reconhecimento das leis nacionais pelos outros Estados-membros, proteção de consumidores e rotulagem de produtos, redução das dependências europeias e mobilização de investimentos (com a eventual afixação de prazos para finalizar o Mercado de Capitais e um apelo para progressão da União Bancária), entre outras questões como a da simplificação e redução dos encargos administrativos e do tempo necessário para a criação de empresas na União (recorde-se que a Comissão Europeia apresentou na quarta-feira uma proposta de simplificação que vai permitir a qualquer empresário criar uma empresa em 48 horas, com um custo máximo de 100 euros e sem exigência de capital social mínimo a partir de qualquer ponto na União Europeia e de forma totalmente digital – ver quadro).
O presidente do Conselho Europeu afirmou os objetivos em cima da mesa e realçou que “a competitividade não é um fim em si mesma. Deve permitir-nos construir uma União mais coesa, com as pessoas no centro. Uma maior competitividade europeia deve ser acompanhada por uma melhoria justa das condições de trabalho. Não vamos ceder nos direitos dos cidadãos, das empresas e do ambiente. Devemos manter os empregos na Europa e aumentar de forma sustentável a oferta de empregos de qualidade”.
Em Bruxelas, António Costa mostrou-se convicto de que a implementação da agenda Uma Europa, Um Mercado irá fortalecer “os alicerces do nosso modelo social. Colocando os trabalhadores em primeiro lugar. Trabalhar para a prosperidade partilhada e reduzindo o custo de vida para todos”.
EU Inc.
A Comissão Europeia apresentou a proposta relativa ao EU Inc., um novo conjunto único de regras aplicável às empresas e que constitui o elemento fundamental do 28.º regime da UE.
O EU Inc. é um quadro de direito societário europeu, de aplicação facultativa e totalmente digital, que visa facilitar a criação, a atividade e o crescimento das empresas na UE, incentivando-as a permanecer na União e criando condições para o regresso daquelas que saíram da Europa.
No contexto atual, os empresários e as empresas inovadoras que decidam expandir as suas atividades para outros países da UE defrontam-se com um panorama jurídico fragmentado, com 27 sistemas jurídicos nacionais e mais de 60 formas jurídicas de empresa. Esta complexidade, refere a Comissão Europeia, “pode atrasar a criação de uma empresa várias semanas ou mesmo meses, com consequências negativas sobre o crescimento, os custos e a escala das empresas”.O EU Inc. é o elemento central da resposta da Comissão Europeia a estes desafios: assumindo a forma de um regulamento, o EU Inc. estabelece um conjunto único e harmonizado de regras aplicáveis às empresas, alternativo aos distintos regimes nacionais, permitindo tirar partido do verdadeiro potencial do mercado único.
A presidente do Executivo europeu, Ursula von der Leyen, referiu, na apresentação deste programa que "a Europa tem talento, ideias e ambição para ser o melhor espaço para os inovadores. No entanto, nos tempos que correm, os empresários europeus que pretendam expandir as suas empresas deparam-se com 27 sistemas jurídicos e mais de 60 formas de empresas nos Estados-Membros. Com o EU Inc., estamos a facilitar significativamente a criação de empresas e o seu crescimento em toda a Europa".
"Qualquer empresário poderá criar uma empresa em 48 horas, a partir de qualquer ponto na União Europeia e de forma totalmente digital. Este passo crucial é apenas o início de um processo. O nosso objetivo é claro: uma Europa, um mercado, até 2028".
A energia no centro das preocupações
No que se refere à competitividade a energia surge como um dos maiores desafios com preços da energia elevados, sobretudo no caso da eletricidade.
Medidas de curto prazo
No curto prazo e tendo em conta a guerra no Médio Oriente, os líderes admitem há um problema com os preços da eletricidade e vão analisar como podem ser reduzidos.
António Costa considera que “o conflito no Médio Oriente está a agravar uma situação já de si complexa. O aumento dos preços da energia e a incerteza quanto à segurança do abastecimento estão a afetar as economias europeia e global. Mas esta crise demonstra, mais claramente do que nunca, que o caminho da Europa para uma maior autonomia e resiliência já não é opcional. É essencial para garantir a nossa segurança e prosperidade”.
“Graças aos nossos esforços coletivos, incluindo a implementação acelerada das energias renováveis e a diversificação das nossas importações de energia, estamos muito mais bem preparados para resistir ao atual choque dos preços da energia do que estávamos em 2022”, reforçou António Costa no fim da reunião com os parceiros sociais.
Os Estados-membros, pelo menos uma larga maioria, já disseram que o sistema do mercado de eletricidade não deve ser alterado, mas há países que defendem a revisão ou suspensão do Mercado de Carbono devido ao aumento dos preços da energia (recorde-se que Portugal é um dos países que defende a manutenção do Sistema de Comércio de Emissões da União Europeia: ver quadro seguinte) mas procuram-se soluções no curto prazo – e com a rapidez possível – para ajudar empresas e famílias no que se refere ao aumento dos preços da energia.Na carta que endereçou aos estados-membros antes da reunião desta quinta-feira, a presidente da Comissão Europeia admite que “as restrições prolongadas no fornecimento de petróleo e gás do Médio Oriente à União Europeia podem ter um impacto significativo na economia europeia”.
Ursula von der Leyen afasta a possibilidade de problemas no abastecimento, mas reforça que “ao mesmo tempo, o impacto nas nossas economias e indústrias está a tornar-se cada vez mais pronunciado. E temos de nos preparar para mais, caso o conflito se prolongue. A nossa resposta deve ser diretamente proporcional à gravidade das ameaças que enfrentamos”.
“Atualmente, a segurança física do abastecimento energético da UE está garantida. No entanto, o aumento dos preços dos combustíveis fósseis já está a pesar sobre a nossa economia e, desde o início do conflito, a Europa já gastou mais seis mil milhões de euros em importações de combustíveis fósseis, uma chamada de atenção direta do preço que pagamos pela nossa dependência. Uma interrupção prolongada do fornecimento de petróleo e gás da região do Golfo poderá ter um impacto significativo na nossa economia”, pode ler-se na carta de Von der Leyen.
Por isso, a presidente da Comissão sugere que “os Estados-membros podem conceder um alívio imediato dos preços da eletricidade às indústrias com utilização intensiva de energia mais afetadas, através do atual quadro de auxílios estatais. O mesmo é possível para os custos de carbono, em que os Estados-Membros também podem compensar até 80 por cento dos custos indiretos de carbono, mitigando assim o impacto dos custos de carbono numa vasta gama de indústrias de utilização intensiva de energia”.
Von der Leyen recordar que “subsidiar ou limitar o preço da geração a gás e redistribuir as receitas inframarginais é outro instrumento que alguns Estados-membros têm utilizado, por exemplo, na crise energética de 2022. A Comissão avaliará, caso a caso, o impacto de tais mecanismos nacionais de emergência concebidos para limitar os efeitos dos elevados preços do gás na eletricidade. A conceção destes mecanismos de emergência deve, em qualquer caso, evitar distorções do mercado interno, preservar os sinais de investimento a longo prazo para as energias limpas e impedir uma procura adicional excessiva de gás”.
Tendo em conta a atual situação, a presidente do Executivo Europeu sugere ainda outras medidas imediatas que ajudem a minimizar os efeitos como “a libertação da maior quantidade de reservas estratégicas de petróleo coordenada pela Agência Internacional de Energia para compensar possíveis interrupções no transporte pelo Estreito de Ormuz e a coordenação para restaurar a navegação na região, incluindo a possibilidade de “coordenação multinacional para preparar o restabelecimento da liberdade de navegação na região quando as condições de segurança o permitam”.
Ursula von der Leyen sugere ainda um incentivo ao aumento da produção de energia em países capazes de substituir fornecimentos interrompidos e renova o apelo para uma monitorização próxima dos impactos no mercado de fertilizantes, essenciais para os agricultores e para a segurança alimentar global.
“Neste contexto, é importante que quaisquer medidas de curto prazo não atrasem a descarbonização do sistema energético, não aumentem a procura de petróleo e gás, sejam temporárias e direcionadas, e minimizem os custos fiscais”, refere a Presidente da Comissão Europeia.Luís Montenegro defendeu a manutenção de um mercado de carbono robusto na União Europeia e alertou para os riscos de enfraquecer este instrumento central da política climática europeia.
Numa carta dirigida ao presidente do Conselho Europeu – em conjunto com a Dinamarca, Espanha, Finlândia e Suécia – os países signatários defendem que qualquer tentativa de "enfraquecer, suspender ou limitar" o Regime de Comércio de Emissões da União Europeia poderia “comprometer a confiança dos investidores, prejudicar os pioneiros das energias renováveis e atrasar a transformação das economias europeias”.
Os cinco países defendem que o Mercado Europeu de Carbono constitui a "pedra angular da estratégia climática e industrial da Europa" e é “o instrumento mais eficaz para reduzir emissões, orientar o investimento em tecnologias limpas e promovera transformação industrial da Europa, ao apoiar a eletrificação”.
Os primeiros-ministros defenderam também a “eliminação progressiva das licenças gratuitas atribuídas a alguns setores industriais, considerando que essa medida é necessária para garantir incentivos à transição energética e à descarbonização da economia, preservando ao mesmo tempo a competitividade das empresas”.
Na carta, os líderes sublinham ainda que reduzir a dependência de combustíveis fósseis reforça a resiliência económica, reduz os custos estruturais com a energia e aumenta a autonomia estratégica da Europa, defendendo que a descarbonização é não apenas uma estratégia climática, mas também de competitividade económica.
Soluções e iniciativas de médio prazo
No que se refere ao médio prazo, o objetivo é manter as metas de descarbonização e de energia limpa. Fonte europeia confirma que “por sermos dependentes dos combustíveis fósseis temos de continuar o caminho da eletrificação das economias e das sociedades” e este é certamente um compromisso que os chefes de Estado e de Governo “vão querer reafirmar”.
O presidente do Conselho Europeu chamou a atenção para este assunto no fim da reunião bianual com os parceiros sociais em Bruxelas, nesta quarta-feira.
Na declaração final, após a Cimeira Social Tripartida, António Costa referiu que, “no Conselho Europeu, os líderes da UE vão decidir sobre medidas concretas e prazos para reforçar a competitividade europeia. Devemos reforçar o nosso Mercado Único, reduzindo as barreiras nacionais e europeias, facilitando o investimento e reduzindo as dependências”.
O objetivo é “tornar a nossa economia e o nosso modelo social europeu mais resilientes a choques e ao aumento da volatilidade. Devemos reforçar a autonomia estratégica da Europa nas áreas da energia, das tecnologias digitais, da defesa e da segurança, e isto exige uma Europa mais determinada e unida. Tal como fizemos de 2025 o ano da defesa europeia — dando passos históricos no sentido de investimentos conjuntos e de instrumentos partilhados — estamos a fazer de 2026 o ano da competitividade europeia.
O Presidente do Conselho Europeu reforçou que o objetivo é tomar “medidas concretas para criar um Mercado Único para uma Europa unida. Para proteger os nossos cidadãos, os nossos trabalhadores e as nossas empresas de ameaças externas, ao mesmo tempo que removemos as barreiras internas que nos impedem de avançar”.
“Devemos manter o rumo e até mesmo acelerar os nossos esforços a longo prazo para descarbonizar a economia europeia. A transição para energias limpas e de origem local é a melhor estratégia para reduzir a nossa dependência dos combustíveis fósseis e baixar os preços da energia”, defende António Costa.
Os chefes de Estado e de governo devem analisar a possibilidade de, ao nível das energias, diversificar as fontes, propor um privilégio de produção europeu e realçar a necessidade de a Europa se proteger de medidas que possam minar a competitividade definindo melhor o uso do instrumento de anti-coerção.
Numa carta que dirigiu aos chefes de Estado e de governo, a presidente da Comissão Europeia definiu medidas de médio e longo prazo como acelerar o investimento em energias renováveis para diminuir a dependência do gás, promover contratos de longo prazo de eletricidade para dar maior estabilidade de preços às empresas, evitar o encerramento prematuro de infraestruturas energéticas de baixo carbono como centrais nucleares e permitir apoios estatais e compensações de custos de carbono às indústrias intensivas em energia.
Compete agora aos Estados-membros definir quais para que a Comissão possa avançar com propostas concretas.
Carta de Ursula von der Leyen aos líderes antes do Conselho Europeu
“A questão mais premente, tanto do ponto de vista da competitividade como da independência, é a energia, em particular o petróleo e o gás. Desde 2021, a UE tem feito progressos significativos na diversificação do fornecimento de energia e no aumento da capacidade de energia renovável. A sua participação na matriz energética aumentou de 36 por cento em 2021 para 48 por cento em 2025. Juntamente com a energia nuclear, mais de 70 por cento da nossa eletricidade é agora produzida a partir de fontes de energia de baixo carbono. Apesar disso, vários sectores – nomeadamente o dos transportes – continuam fortemente dependentes da importação de combustíveis fósseis.
Ao mesmo tempo devemos avançar rapidamente para os próximos passos: medidas que reduzam os custos de energia de forma mais duradoura, abordando os fatores estruturais que impulsionam os elevados preços da energia, com foco na eletricidade.
Para isso, devemos atuar sobre os quatro principais componentes que determinam os preços da eletricidade: (1) o custo da própria eletricidade; (2) tarifas de rede; (3) impostos e taxas; e (4) custos de carbono.
Em primeiro lugar, no que diz respeito ao custo da eletricidade, que por si só representa mais de metade do preço. A redução destes custos exige progressos rápidos em direção às metas de energia limpa da UE para 2030, com investimentos oportunos em locais e tecnologias alinhados com as necessidades do sistema. Esta é a melhor forma de limitar as horas em que o gás natural, mais caro, define o preço grossista. Os especialistas concordam que um sistema baseado no mercado e na definição de preços marginais proporciona benefícios claros no geral. Nas últimas semanas, muitos de vós – bem como um vasto leque de partes interessadas – têm alertado contra a alteração deste modelo fundamental.
Ao mesmo tempo, é inegável que o sistema atual cria desafios significativos em alguns Estados-Membros, especialmente quando os preços do gás são elevados. Para além de uma mudança estrutural mais rápida, devemos também mitigar o impacto dos custos dos combustíveis fósseis durante estes períodos.
Tal como recomendado no Relatório Draghi, os contratos de longo prazo, os chamados Acordos de Compra de Energia podem desempenhar um papel importante ao desvincular os preços da energia industrial do mercado grossista mais volátil. Até ao momento, a sua adoção tem sido limitada. A Comissão irá, assim, eliminar as barreiras existentes e promover ainda mais a sua utilização para todas as capacidades de geração de baixo carbono, incluindo através da combinação de Acordos de Compra de Energia com Contratos por Diferença
Evitar a desativação prematura de ativos, como as instalações nucleares existentes, que podem continuar a fornecer eletricidade fiável, de baixo custo e com baixas emissões, também pode desempenhar um papel importante.
Acelerar a integração de energia de baixo carbono e produzida localmente no nosso sistema energético é uma das formas mais eficazes de reduzir o impacto dos combustíveis fósseis na definição de preços. Não podemos permitir que enormes volumes de capacidade renovável economicamente viável deixem de chegar aos consumidores devido a redes inadequadas. Devemos dar prioridade às negociações sobre o Pacote das Redes, em particular no que diz respeito à aceleração dos procedimentos de licenciamento, garantindo a sua rápida adoção e avançando resolutamente com outros elementos de flexibilidade do sistema, incluindo o lado da procura.
No que diz respeito aos impostos e taxas, ainda existem discrepâncias significativas dependendo da fonte de energia. Em muitos casos, a eletricidade é tributada muito mais pesadamente — até quinze vezes mais — do que o gás. Isto impõe um fardo desproporcionado às empresas, especialmente às indústrias com utilização intensiva de energia que estão em transição para a eletrificação e a descarbonização.
Existe, portanto, um claro potencial, incluindo através de legislação, para reduzir a tributação da eletricidade, eliminar certas taxas não relacionadas com a energia das faturas de eletricidade e garantir que a eletricidade é tributada de forma mais favorável do que os combustíveis fósseis”.
A via diplomática para a crise no Médio Oriente
Coordenar a posição e as ações dos Estados-membros para minimizar os impactos para poder contribuir para o atenuar da situação no terreno.
Ursula von der Leyen recorda que a “crise no Médio Oriente é um conflito regional com graves repercussões geopolíticas e geoeconómicas para a Europa – desde a energia e finanças, ao comércio e transportes, às cadeias de abastecimento e à deslocação de pessoas dentro e entre países da região. Vimos um dos nossos Estados-membros, o Chipre, ser afetado e reafirmaremos o nosso apoio e solidariedade inabaláveis a eles ainda esta semana. Vimos os nossos parceiros serem diretamente visados, os nossos cidadãos serem apanhados no fogo cruzado e a NATO ser chamada à ação para abater mísseis e drones. A nossa principal prioridade continua a ser a segurança dos nossos cidadãos, Estados-Membros e parceiros, e devemos enviar uma mensagem clara de que reforçaremos todos os esforços diplomáticos para trabalhar em prol da redução de tensões”. A situação na Ucrânia
Com a presença do presidente de Ucrânia, por videoconferência, a ajuda à Ucrânia surge como um dos temas mais complexos deste Conselho Europeu e novamente por cauda do primeiro-ministro da Hungria.
Viktor Orbán enfrenta uma eleição crucial no próximo mês, que poderá pôr fim aos seus 16 anos no poder, e tem feito da Ucrânia e do Presidente ucraniano um dos seus alvos principais na luta pela vitória eleitoral, com Budapeste cheia de cartazes com a imagem de Zelensky e afirmações de que a Hungria não se deixará dominar por Kiev.Orbán resolveu mesmo recuar no que ficou decidido no Conselho Europeu em dezembro e bloquear o empréstimo à Ucrânia que exige unanimidade entre os membros da UE e o 20.º pacote de sanções contra a Rússia,
Uma fonte europeia confirma que o presidente do Conselho Europeu teve na manhã de terça-feira uma longa conversa telefónica com o primeiro-ministro da Hungria, mas sem grandes avanços.
Mesmo assim, António Costa já fez saber – por várias vezes – que os compromissos assumidos por Orbán em dezembro devem ser cumpridos... e rapidamente. Resta saber se a Hungria o vai fazer porque em causa está o empréstimo de 90 mil milhões em dois anos à Ucrânia que os 27 aprovaram na última reunião e que dificilmente pode avançar se o primeiro-ministro húngaro se recusar.
Na origem desta posição de Budapeste está o oleoduto de Druzhba, uma das maiores artérias energéticas da Europa, que abastece ainda a Hungria e a Eslováquia de petróleo russo mais barato.
Esta via foi danificada em bombardeamentos russos o que impede que os dois países da União Europeia recebam o petróleo de Moscovo. Budapeste e Bratislava queixam-se da insegurança energética que esta situação representa.Viktor Orbán defende que o oleoduto de Druzhba está operacional e que só está fechado pelo Presidente ucraniano por razões políticas e com o objetivo de influenciar as eleições húngaras de 12 de abril.
Numa carta enviada a Ursula von der Leyen, Zelensky afirmou que as alegações de Orbán são "infundadas" e argumentou que a interrupção foi causada por ataques russos ao oleoduto e às infraestruturas adjacentes no final de janeiro.
Zelensky defende-se e diz que não é uma obra prioritária para um país em guerra sobre constantes bombardeamentos e que tem o seu próprio sistema de energia sucessivamente destruído pela Rússia.
O tom das acusações entre Kiev e Budapeste já esteve mais elevado – com Bruxelas a pedir a Kiev para atenuar o discurso – e acredita-se que o facto de Volodymyr Zelensky ter aceitado a ajuda da União Europeia e a presença de técnicos enviados pela Comissão Europeia pode fazer recuar Viktor Orbán.
Bruxelas confirmou que a Ucrânia aceitou uma inspeção externa ao polémico oleoduto e esta mudança pode abrir caminho para a Hungria retirar o seu veto ao empréstimo à Ucrânia e ao novo pacote de sanções.
O bloco europeu também se ofereceu para financiar as obras de reparação do oleoduto.
"A UE ofereceu à Ucrânia apoio técnico e financiamento. Os ucranianos acolheram e aceitaram esta oferta", afirmaram na terça-feira a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, numa declaração conjunta garantindo que “os especialistas europeus estão disponíveis imediatamente".
Um alto funcionário europeu recorda que “os dois assuntos não estão ligados embora a Hungria os queira manter juntos” e que “o presidente do Conselho Europeu defende que a decisão sobre o empréstimo à Ucrânia é para respeitar, mas que se deve trabalhar na questão do oleoduto por ser importante para a segurança energética daqueles dois Estados-membros”.
O mesmo alto funcionário referiu que a “União Europeia deve prestar assistência a qualquer estado-membro que precise da mesma” e que “a iniciativa de enviar uma missão técnica à Ucrânia se insere nessa preocupação que Bruxelas tem em auxiliar qualquer um dos países que a integram”.
“A nossa prioridade é garantir a segurança energética para todos os cidadãos europeus. Neste sentido, a presidente da Comissão Europeia e o presidente do Conselho Europeu continuarão a trabalhar com as partes envolvidas em rotas alternativas para o trânsito de petróleo bruto não russo para os países da Europa Central e Oriental”, pode ler-se na declaração conjunta conhecida esta semana.
Mais, Von der Leyen e Costa afirmam que “no atual contexto de elevada volatilidade dos mercados energéticos, a retoma do trânsito do petróleo pelo território ucraniano torna-se ainda mais importante para preservar a estabilidade do mercado. Isto está também em consonância com as obrigações contratuais existentes da Ucrânia, bem como com a derrogação concedida à Hungria e à Eslováquia relativamente à proibição geral da UE à importação de petróleo russo”.
Os dois presidentes garantiram a Zelensky que a operação de reparação não vai afastar Bruxelas da intenção de eliminar gradualmente todos os combustíveis fósseis russos até ao final de 2027 para cortar todas as formas de financiamento da economia de guerra do Kremlin.No entanto, a Hungria insiste que devem estar envolvidos especialistas húngaros e eslovacos e o Ministro dos Negócios Estrangeiros húngaro, Péter Szijjártó já classificou a medida de von der Leyen sobre o gasoduto como "teatro político" argumentando que “Budapeste não está disposta a ceder”.
"Não se deixem enganar. Isto é um jogo político. Cada passo foi coordenado entre Kiev e Bruxelas. Não vamos fingir que von der Leyen está a resolver um problema do qual não tinha conhecimento. Apelamos a Zelenskyy e von der Leyen para que parem com este teatro político", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria.
É um cenário, ainda, de incerteza. Os contactos diplomáticos continuam para tentar encontrar um acordo que permita desbloquear o empréstimo à Ucrânia e o 20.º pacote de sanções à Rússia. Resta saber se o Primeiro-ministro húngaro cede antes das eleições que podem determinar o seu futuro na liderança política do país mais ainda quando, a três semanas das eleições legislativas, as sondagens colocam o partido de Viktor Orbán a perder.